Os sinais da crise

por Marcos Kahtalian

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Há várias razões para as crises, inclusive as razões que inventamos. Por exemplo, todos os agentes econômicos sabem que a própria crença na crise ajuda a estimulá-la, em um processo de profecia autorrealizável.

Mas é verdade também que só o pensamento positivo pode fazer muito pouco em uma crise, além de ajudar a vender livros e esperança.

O fato é que parece que o mundo entrou num consenso em que temos dois cenários mundiais possíveis: uma leve recessão mundial – ou não tão leve, segundo alguns – ou uma estagnação econômica, puxada pela crise nos grandes demandantes, ou seja, os países ricos. A grande questão para variar é a China, essa eterna muralha enigmática. Terá ela demanda interna suficiente para puxar o crescimento?

E quanto a nós, brasileiros? A presidenta (opa!) já disse que não teremos crise. Mas os agentes econômicos já estão precificando o cenário futuro e arrolando as possíveis medidas de contenção de despesas e de política monetária. A questão é que, resistindo melhor ou pior, todos estamos conectados economicamente e por isso os efeitos de uma crise mundial se farão sentir – inclusive pelo efeito das expectativas de incerteza.

Porém aqui cabe um detalhe: estas expectativas mais pessimistas hoje estão no atacado, isto é, estão entre aqueles que de alguma maneira possuem um alto grau de informação e conhecimento aplicado. No varejo, quer dizer, entre toda a população, como falar em crise quando: a) Há crédito; b) Há emprego pleno; c) Os rendimentos aumentam? Isso sem contar com o fato de que o consumidor brasileiro está otimista quanto ao futuro, não acredita que possa ficar desempregado, ou pode achar rapidamente outra colocação – talvez melhor que a atual.

Esse gap – entre a percepção do atacado e do varejo quanto às expectativas – é que é a janela de oportunidade para o governo brasileiro orientar medidas de combate ao novo cenário. Algumas ações, por exemplo, no câmbio, já começam a aparecer, mas ainda falta muito que fazer. Antes que as águas mudem e também o consumidor comece a ficar desestimulado pelos indicadores negativos que lhe afetam. Pois realmente, como uma piada cruel nos ensina, recessão é quando seu vizinho perde o emprego, mas depressão mesmo é quando você perde o emprego.

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Publicado em agosto 25, 2011, em Artigos e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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