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Entre o tédio e a emoção

(artigo publicado originalmente no Caderno de Economia da Gazeta do Povo, edição do dia 24 de abril de 2011)

Desde pelo menos 1999, quando alteramos na marra o regime cambial, não temos mudanças significativas em nossa política econômica. A economia até pareceu ficar monótona. Entretanto, a crise mundial de 2008 acabou com a monotonia. Novamente passamos a conviver quase que mensalmente com anúncios de medidas econômicas. Inicialmente com medidas para estimular a economia e preservar empregos. Agora o campo de batalha mudou: as lutas são para evitar a valorização do real e para debelar a inflação.

No primeiro front, temos o real como a moeda de maior valorização frente ao dólar nos últimos três anos. Muitas, evidentemente, são as razões. Mas a mais direta (e muitas vezes oculta nas análises) é a nossa astronômica taxa de juros.

Enquanto o mundo desenvolvido praticar uma taxa de juros real negativa ou próxima de zero e os países emergentes tiverem taxas de juros equivalentes a um terço da nossa, o país continuará a atrair bilhões de dólares. E não para investimento; apenas para ganhar como diferencial de juros.

Num sistema de câmbio flutuante com liberdade de movimento de capitais (entrada e saída de dólares para aplicações na bolsa, títulos de curto prazo, etc), sempre que a taxa de juros real interna for maior que a externa, haverá entrada de dólares.

E o que a inflação tem a ver com dólar e câmbio? Neste momento, nada. Ocorre que o mesmo fenômeno que valorizou o real elevou em todo o mundo o preço das commodities (produtos homogêneos de negociação e preço mundial, como soja, ferro, aço e açúcar).

Se produzir e comer ficou muito mais caro nos últimos 24 meses, é natural que o nível da inflação tenha se elevado. A taxa anualizada nos EUA está ao redor dos 4%, na Inglaterra, em 4,7%, na Índia, em 7% e, na Rússia, em 9%.

Ou seja, a inflação é um problema mundial. O que não significa que o Brasil não deva tomar medidas para levá-la de volta à meta. O Banco Central, felizmente, começou a utilizar uma política monetária mais ampla, possivelmente mais eficaz e certamente com menos efeitos colaterais que o aumento dos juros.

Por exemplo, um financiamento de R$ 5 mil por 60 meses a uma taxa de 3,8% ao mês. O valor da prestação será de R$ 212,69. Uma alta da Selic de 1% ao ano corresponderá a 0,083% ao mês. Se aumentar a taxa mensal nesse montante, o valor da prestação subirá para R$ 215,69, uma alta de apenas 1,01%. Qualquer brasileiro que já realizou compra a prazo sabe que isso não impedirá a tomada do financiamento, porém o governo terá gasto mais de R$ 15 bilhões com juros num período de 12 meses.

Embora o mercado ainda reclame das medidas macroprudenciais do BC, elas têm um efeito muito mais direto sobre o consumo das famílias. Uma medida ainda não tomada, mas que seria muito boa, é a limitação nos prazos máximos de parcelas.

Resumo da história: a monotonia parece ter definitivamente acabado no mundo da economia. É bom, portanto, nos acostumarmos aos pronunciamentos.

Fábio Tadeu Araújo.

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